domingo, 3 de novembro de 2013

Road trip irlandesa. Ou: road trip da pedra velha

Quem me conhece sabe que adoro uma pedra velha. Quanto mais velha melhor. E tem que ser pedra man made. Rola até um coeficiente de olhos marejados: quanto mais velha a pedra, mais marejados os olhinhos.
Loughcrew Cairns. De cima da passage tomb principal,
olhando pra uma das secundárias
Então, antes de pisar por aqui, comecei a seguir umas páginas de história irlandesa no face. História, arqueologia, Irlanda megalítica, todas essas loucuras. E uma dessas páginas, a Irish Medieval History (que, aliás, recomendo muito), posta sobre as origens do Halloween, e como algumas teorias ligam esse festival, originalmente o Samhain, a um lugar aqui perto, a Hill of Ward, ou Tlachtga. Daí fui na internet ver se rolava alguma coisa por lá. E rolava! Um Festival of Fire, com direito a reenactment de Samhains antigos. Pensei que tinha cara de ser super new age, quero ser druída, mas mesmo assim achei que valia. Vamô lá, quantas vezes na vida eu estaria perto do birth place do Halloween, no Halloween? A tal Hill of Ward fica em Athboy, menos de 70 km de Dublin. Tem ônibus barato diariamente, mas não dava pra voltar no mesmo dia por causa do horário do último ônibus. Aí pensamos, já que vamos ter que dormir por lá, podíamos gastar um pouco mais e alugar um carro pra passear. E ficar duas noites logo! E tinha airbnb em Trim, pertinho de Athboy. E assim a road trip foi planejada.


Não vou nem falar do parto que foi pra dirigir o carro, esse é um capítulo à parte. It's wrong. Just wrong. Mas sobrevivemos.




Pedra velha, entrada de Newgrange
Chegamos em Newgrange no primeiro dia. Newgrande é espetacular. Construída em 3200 BC, mais velha que o Stonehenge, mais velha que a pirâmide de Gizé. Chupe essa manga. Tem um monte de informação legal sobre Newgrange na internet (tipo aqui http://www.newgrange.com/) mas na verdade eles não sabem muita coisa sobre pra que servia, ou quem fez. E no visitor's centre, por onde você tem que passar pra ir até lá, tem tipo um museuzinho, que mostra como foram as escavações, como foi o processo, e o que eles sabem do local. Fala até um pouquinho sobre a datação por carbono 14, e como ela tem falhas. (Mas disso eu já sabia porque tenho amigos lindos. Né Ceará?) Mas enfim, você pode entrar na tumba, a passagem é estreita e baixinha, mas é sensacional estar lá dentro, pensar que aquilo existe há muito, muito tempo, mais do que você dá conta de conceber. Não consigo não pensar em quem seriam as pessoas que construíram aquilo. Mas confesso que a purista que existe em mim fica um pouco desapontada em ver que a fachada da tumba foi toda reconstruída. Tô aí pra debater o valor das restaurações.



Trim Castle, dentro das muralhas, o keep.
No outro dia fomos até o Castelo de Trim. Mas fomos caminhando, da casa em que estávamos hospedados (airbnb, seu lindo), por um caminho mega bucólico, Boyne River Walk. O caminho vai beirando o rio Boyne, o mesmo que fica ali em frente à Newgrange, e passa por ovelhinhas, vaquinhas, um cemitério, umas ruínas de um hospital e de uma catedral, ambos do século 12. Lindo lindo. O castelo é um prato cheio pra quem gosta de história, passou de mão em mão até os dias atuais, sofreu sítios e fortificações, até se arruinar aos pouquinhos. Dá pra entrar dentro do que sobrou do edifício, fizemos um tour com um guia todo engraçadinho, cheio de piadinhas irlandesas (Perdi algumas piadas, confesso. Em umas faltava contexto, em outras conhecimento de história, e outras não deu pra entender o sotaque mesmo).

Trim Castle, visto do outro lado do Boyne

Vista aérea,
pra ter uma ideia do que estou falando.
Na noite do dia 31, halloween, fomos pra Hill of Ward. Eu tava curiosíssima. E foi um esquema super Brumas de Avalon. Adorei. Histórias contadas por mulheres, cheias de protagonistas e heroínas mulheres, super feminista. Bem na vibe do livro. Mas, pra além da cerimônia, achei a colina sensacional. Voltamos no outro dia, queria muito ver como era aquilo ali no sol. Tem umas ondulações bastante profundas no terreno, e é impressionante pensar que foi feito pelo homem, há muito muito tempo. E tá aí ainda. Cai na mesma categoria de pedra velha.



Loughcrew Cairns, passage tomb
Uma das menores, descoberta.
Pra ver a estrutura de uma por dentro.
Daí, no dia 01, fomos no lugar mais sensacional até então: Loughcrew Cairns. Apesar do meu guia de bolso dizer que o lugar fica fechado no inverno, o nosso anfitrião do airbnb disse que era besteira, e falou pra gente ir num café que fica perto do lugar, na beira da estrada. Funciona assim: você chega nesse café, diz que quer ir pra Loughcrew, a mocinha pede um depósito, ou sua carteira de motorista ou 50 euros (que serão devolvidos) e te dá uma chave  uma lanterna à corda. Aí você pega o carro, dirige uns poucos quilômetros, para num estacionamento, sobe uma colina e tcharam! uma passage tomb (que nem Newgrange) só pra você, sem nenhum outro turista, sem tempo de visita limitado, sem guia. Você pega sua chave, abre um portãozinho, e entra na tumba. E fica lá o quanto quiser. Essa não tá restaurada, é menor, não foi tão estudada, mas é sensacional. Ao redor tem outras três passage tombs menores ainda, e menos conservadas, só tem os restos. O lugar, além de tudo, é lindo. Tem uma vista de tirar o folego (pra compensar a subida, que também é de tirar o folego), com ovelhinhas e tudo, pra compensar o cenário. Aliás, ovelhinhas são default nessas paragens. Confesso que o índice de marejamento de olhos nesse lugar foi alto. Abracei todas as pedras velhas que quis e ninguém me olhou feio. Mozão aprendeu a lidar comigo já, hehe.



E, pra completar, ainda fomos num outro castelo, ou numa outra ruína de castelo, a Dunemaise Rock. O castelo foi construído num lugar onde já tinha uma fortificação, dún, no século 9. Foi atacado pelo vikings em 845. Foi sensacional ir nesse lugar enquanto releio as crônicas saxãs, do Bernard Cornwell. Imaginei paredes de escudos nas muralhas e tudo.

Dunamaise Castle

Foi uma road trip linda, que cutucou o bichinho da arqueologia que existe em mim!







Nenhum comentário:

Postar um comentário